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Até hoje não descobri ao certo o que fez ele parar em frente aquela casa com som alto.

Talvez o som repetitivo da guitarra, como uma marcha – pé, ante pé, ante pé, ante pé – hipnótica, afinada na velocidade das pedaladas e que, numa vibração por simpatia fez a bicicleta parar e os ouvidos vibrarem na mesma freqüência…
 
Talvez o solo distorcido, destoando do resto da música – limpa, como dizem os guitarristas – só com algum chorus e reverb. 
Aquelas frases repetidas se sobrepondo, os temas tirados de hinos, que é o mais próximo que ele chegou de saber o que significava Patriotismo, já que nascera numa época já longe até do pós-guerra. O peso do timbre fazendo em sua cabeça vazia o estrago de uma bala de canhão… ah o poder da imaginação, da inocência e da televisão. Frases que soariam muito bem em uma trombeta de batalha, anunciando o próximo movimento para os batalhões em ação mas que estavam ali nas cordas de aço (talvez a única coisa semelhante entre guitarras e canhões – o aço) daquela guitarra que ele nem sabia quem tocava.
 
Talvez fosse o som do baixo,ainda que ele nem imaginasse que esse instrumento existisse. As freqüências graves em staccato marcando uma pulsação que talvez viessem das caixas de som, talvez do seu próprio coração, mas ele nunca ia saber.
 
A voz forte e ao mesmo tempo enternecida do cantor desenhava em sua cabeça uma versão completamente diferente do que ele descobriu anos depois ser a verdadeira face do intérprete.
Quando descobriu também que a própria música era uma versão.
E aprendeu que, às vezes, as versões ficam melhores que os originais.
 
Pode ter sido a bateria. Instrumento que ele achava “exibido”demais por motivos que nem ele sabia ao certo e, por isso, desprezava. Mas é inegável o poder que o apelo visual de um baterista, magrelo, cabeludo e com cara de feliz, fazendo caretas enquanto surra o seu instrumento impiedosamente tem sobre o imaginário infantil.
 
Talvez a história embarcada na letra, falando de uma pessoa normal, como qualquer jovem, que tem sua vida alegre e simples (já que não era belo mas mesmo assim…) transformada pelo horror da guerra tivesse impressionado ele.
Trocar uma guitarra por uma arma seja talvez a forma mais brutal de matar um sonho.
A brutalidade de cortar os cabelos, trocar de país, usar sempre as mesmas roupas, tenha sido demais pr’aquele garoto que só passava em frente aquela casa com som alto.
 
Pode ter sido que a bagunça que a turma que estava dentro daquela casa de esquina estivesse fazendo enquanto brincavam de guerra, lançando balas-almofadas de canhão ao som de metralhadoras “baterísticas” foi o que realmente chamou a atenção do garoto.
 
Quem sabe até tenha sido somente o sol quente que o forçou a parar na sombra daquele sobrado para deixar as gotas de suor da testa esfriarem um pouco enquanto as pernas descansavam do selim da bicicleta. 
 
Há muitos anos atrás, enquanto andava de bicicleta por uma rua da minha cidade, parei na sombra de um sobrado de esquina de onde vinha o som inconfundível do refrão de “Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e os Rolling Stones”, cantada pela banda Engenheiros do Hawaii.
 
Aquele “Ratatatá tatá, ratatatá tatá” me fascinou.
 
Até hoje não sei o que me fez parar: A guitarra, o baixo, a bateria, a voz, o sol, a sombra, a brincadeira. 
 
Só sei que nunca mais esqueci.
 
Até hoje não sei o que me fez parar, mas sei o que me faz seguir em frente. 
 
Porque afinal, apesar de tudo, ele era só um garoto.
 
E era como eu.
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